Como uso IA na análise de recuperação judicial
Como um advogado de operações societárias usa Solon e Claude para reconstruir o histórico de um processo, testar premissas e decidir sobre a aquisição de crédito em recuperação judicial.
Um processo de recuperação judicial pode passar de milhares de páginas, somando o plano, os aditivos, as atas de assembleia e as decisões do juiz. O que decide se vale comprar um crédito costuma caber em um parágrafo de um desses documentos. Meu trabalho é achar esse parágrafo antes de fazer a proposta.
Sou advogado de operações societárias, e minha rotina sempre foi diferente da dos colegas de contencioso: não acompanho prazos processuais nem uma carteira de processos com movimentação diária. Analiso recuperações judiciais para apoiar decisões de investimento, como comprar ou conceder crédito e estruturar a operação. Boa parte do meu tempo ia em juntar informação espalhada e separar o que muda a tese de investimento. Foi nessa parte do trabalho que a IA começou a fazer diferença.
Três regras que sigo hoje:
- Toda resposta da IA volta para o documento original antes de entrar na conta.
- Em vez de pedir resumo, pergunto qual documento define cada condição e como ela mudou.
- Escrevo meus critérios antes de delegar qualquer etapa.
O que preciso saber antes de comprar um crédito
Quando avalio a compra de um crédito em recuperação judicial, quero saber quanto vou receber, e quando. A resposta está no plano de recuperação, que define para cada crédito:
- a classe: o grupo de credores em que o crédito entra, e cada grupo tem condições de pagamento próprias;
- o valor reconhecido: quanto do crédito foi aceito oficialmente no processo;
- o deságio: o desconto que o plano aplica sobre esse valor;
- a carência e o prazo: quanto tempo até o primeiro pagamento e em quantas parcelas ele acontece;
- o índice de correção: como o valor é atualizado enquanto o pagamento não chega;
- as garantias: se ainda existe algum bem, como um imóvel, que assegura o recebimento.
O difícil é que essas informações quase nunca estão num lugar só. Imagine um crédito quirografário oferecido com desconto. O plano aprovado prevê pagar essa classe com 50% de deságio, em dez anos. Um aditivo votado meses depois sobe o deságio para 70% e acrescenta dois anos de carência. Mais tarde, o juiz anula a cláusula que definia o índice de correção. Quem lê só o plano calcula um retorno que já não existe.
Como uso Solon e Claude na análise
Uso duas ferramentas, em momentos diferentes. O Solon lê o processo inteiro e mostra de onde veio cada informação. O Claude, assistente de IA da Anthropic, me ajuda a pensar a operação.
No Solon encontro a informação que procuro e cruzo um documento com outro. No exemplo do crédito quirografário, é ali que reconstruo a sequência: o plano, o aditivo e a decisão, cada um com a referência do documento de onde saiu.
Com essa base pronta, passo para o Claude e testo preços de aquisição, prazos e hipóteses de recebimento. Vejo quanto cada variável mexe no retorno esperado. Quando uma premissa passa a pesar na decisão, volto ao processo e confiro de onde ela veio antes de colocá-la no cenário.
O departamento jurídico da Century Communities trabalhou de forma parecida numa operação de M&A com 87 contratos de terrenos. A equipe usou IA para fazer a primeira leitura dos contratos e organizar a due diligence, sem perder o acesso aos documentos de origem. Segundo Jarret Coleman, diretor jurídico da empresa, em estudo de caso da Thomson Reuters, uma tarefa que levava uma hora passou a levar cinco minutos ou menos.
A fonte original valida a resposta
A primeira regra que adotei foi tratar toda resposta da IA como ponto de partida e conferir cada uma no documento original.
Num processo de insolvência, leio plano, aditivos, atas de assembleia e decisões judiciais. Um erro de leitura em qualquer um deles pesa direto na decisão de investimento: no exemplo acima, bastaria perder o aditivo. A IA encontra e organiza bem a informação espalhada por esses documentos. Decidir o que ela significa para a viabilidade do caso continua sendo trabalho meu.
Por isso só trabalho com IA que mostre de onde tirou cada informação. Se um dado entra numa premissa de investimento, preciso chegar ao documento que o originou, ler o trecho no contexto e checar se algo mudou depois.
Resumir o processo raramente é suficiente
Com o tempo, percebi que resumir documentos resolvia pouco do meu problema.
Numa recuperação judicial, costumo procurar um dado específico que confirme ou derrube uma premissa: a condição de pagamento de uma classe, uma garantia, uma mudança na nova versão do plano ou uma decisão que afete a estrutura pensada para a operação. Em processos longos, eu gastava boa parte do tempo só para achar esse dado, antes de começar a analisá-lo.
Então mudei as perguntas. Lado a lado, a diferença fica assim:
| Pergunta que rende pouco | Pergunta que funciona |
|---|---|
| "Resuma o plano de recuperação." | "Qual documento define o deságio da classe quirografária, e em que página?" |
| "Quais são os riscos deste crédito?" | "Algum aditivo ou decisão mudou as condições de pagamento dessa classe depois da aprovação do plano?" |
| "Explique as condições de pagamento." | "Qual índice corrige este crédito hoje, e de qual documento vem essa regra?" |
As perguntas da direita apontam para um documento, e por isso consigo conferir a resposta.
Delegar exige critérios explícitos
A segunda regra foi escrever os critérios que eu aplicava por intuição.
Para montar um cenário de investimento com base no processo, preciso saber que premissas pedem mais atenção, que cláusulas costumam gerar litígio e que cuidados tomar na proposta para reduzir o risco de sucessão. Também preciso reconhecer quando uma informação deixa de ser rotina e passa a exigir revisão.
Um pedido genérico como "analise este plano" rende pouco nesse trabalho. A delegação começou a funcionar quando passei a dizer à IA o que procurar, o que relacionar, o que destacar e em que casos parar e me chamar.
Escrever esses critérios também mudou meu método. Hoje separo melhor três etapas que antes se misturavam: levantar os fatos, fazer a análise jurídica e montar os cenários econômicos.
O que mudou na minha rotina
O ganho mais visível foi de tempo. Levantar informação, comparar planos e fazer um primeiro desenho dos cenários tomava boa parte do prazo de análise. Hoje leva uma fração disso.
Escritórios grandes relatam o mesmo efeito. Segundo a Microsoft, o Husch Blackwell, com mais de vinte escritórios nos Estados Unidos, economizou 8.800 horas de advogado usando o Copilot, assistente de IA da Microsoft, para resumir reuniões, analisar documentos e redigir correspondência. No DLA Piper, as equipes operacionais e administrativas pouparam até 36 horas por semana em produção de conteúdo e análise de dados. São rotinas diferentes da minha, mas lá o tempo também saiu das tarefas de leitura, resumo e redação.
Com o tempo que sobra, testo mais hipóteses de recebimento antes de concluir se uma operação é viável. Na compra de um crédito, comparo preços de entrada, condições e prazos de recebimento e hipóteses sobre o cumprimento do plano antes de formar opinião.
Escrever os critérios foi o que me permitiu delegar a busca e a organização dos documentos. O parágrafo que decide a compra continua sendo lido por mim, no documento original. Hoje eu só chego a ele mais rápido.
Referências
- DLA Piper, Microsoft
- Husch Blackwell, Microsoft
- Century Communities, Thomson Reuters
Perguntas frequentes
- IA substitui a análise do advogado em uma recuperação judicial?
- Não. A IA recupera e organiza informação dispersa entre centenas de documentos, e a interpretação sobre o que aquilo significa para a viabilidade do caso continua sendo do advogado. A resposta da IA é ponto de partida a ser verificado contra a fonte original, nunca conclusão.
- O que verificar antes de adquirir um crédito em recuperação judicial?
- Como o crédito será tratado no plano: classe, valor reconhecido, deságio, carência, prazo, índice de correção e garantias que continuam de pé. Essas informações raramente estão no mesmo lugar: uma condição pode nascer no plano, mudar em um aditivo e depois ser afetada por decisão judicial.
- Por que resumir o processo não basta?
- Porque o que decide uma tese de investimento costuma ser um ponto específico, não o panorama: uma condição aplicável a determinada classe, uma garantia, uma alteração em nova versão do plano. Em vez de pedir resumo, a pergunta útil é qual documento define aquela condição e como ela mudou ao longo do processo.